sábado, 20 de setembro de 2008

Neve - Orhan Pamuk

"A literatura, o amor, o ateísmo e Deus


Finalmente criei coragem (sabia? precisa de coragem sim!) para escrever sobre esse livro que provocou, admito, grandes abalos em alguns de meus conceitos.

O próprio Orhan Pamuk diz que este é seu primeiro e último livro sobre política, mas não deveria. Apesar de trazer esse assunto espanta leitores, Neve conta a história do poeta e jornalista Ka, um exilado político que vive na Alemanha, mas que volta para sua cidade natal na Turquia, chamada, vejam só: Kars (que significa Neve, em Turco).

Ka pretende escrever uma matéria sobre Kars para um popular jornal da Alemanha e também investigar o estranho aumento repentino de suicídios entre as jovens da cidade. Durante a viagem, ele lembra de uma antiga colega chamada Ïpek, uma moça divinamente bela, pela qual ele se apaixona em um piscar de olhos.

O conflito político e religioso é intenso e envolvente, ao mesmo tempo que mistura o romance entre Ïpek e Ka, impregnado com os valores quase exóticos da cultura oriental.

As duas facções principais são os islamitas radicais e os chamados secularistas (ou ateus), que inclusive estão disputando as eleições na cidade. A principal escola - a Escola Secundária - proíbe as moças de entrarem vestindo seus mantos, que são uma marca bem forte de sua religião. É a partir daí que se iniciam as especulações de Ka, que tenta entrevistar familiares das suicídas, apesar de não ter muito sucesso.

Entre as muitas casas de chá de Kars e muita neve, Ka volta a escrever seus poemas, ele se sente inspirado novamente, pelo amor de Ïpek talvez, mas mais do que nunca pelo amor que sente por Deus. O Ka ateu da Alemanha volta a acreditar nesse ser divino quando chega a Kars, volta a querer ser feliz, volta a saber o que é o amor.

Revelando-se apenas no final do livro, o narrador é um amigo de Ka chamado Orhan Bei, que narra a história do poeta quatro anos após sua visita a Kars, relembrando cada um de seus passos, baseado em suas cartas e anotações.

As aberturas de cada capítulo são elementos curiosos, Pamuk usa como título principal alguma fala marcante que esteja por vir, enquanto usa como título secundário o verdadeiro nome do capítulo. É no mínimo instigante.

Outro facto interessante é que apesar de o livro tratar da religião islamita — na qual Deus se chama, na verdade, Alá — esse nome não aparece sequer uma vez no romance e também pouquíssimas vezes o nome do profeta Maomé é citado. Isso me levou a pensar se não foi um caso de censura da tradução — que partiu do Turco para o inglês e daí para as demais línguas. Será?"

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