segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Colégio da Cerdeira II




COLÉGIO DA CERDEIRA – 2011
(80º aniversário da abertura do Colégio / 50º aniversário da minha entrada)



1962 a 1967(????)



memórias soltas em palavras

Dessa casa de pedras frias que aqueceram emoções
que tanta vez brotou em turbilhão à flor da pele...
Emoções sem as quais a vida não teria o mesmo sentido...
Porque ter passado pelo colégio
É sentir orgulho de ser Gente
Aquela... que é diferente!
(Lena Guerra)



Comemorar 80 anos da existência como Escola Cristã de uma instituição onde, para o mal e para o bem se entrou com 9 aninhos é motivo de orgulho! Fi-lo no fim de semana de 1 de Outubro de 2011. Comovente??? Não sei…doeu ter visto um Colégio (foi assim que se começou a chamar) já lá vão muitos anos. O “meu” colégio nada tem do que eu deixei…já não há Nicho com a imagem de Nª. Srª. em terracota. - já não existe o dormitório grande das meninas internas…nem o dormitório das cortinas tão ao nosso gosto…
O quarto da Irmã Ritinha…é hoje uma capela….as freiras dormem agora em quartos individuais com casa de banho privativa…evolução dos tempos…mas este colégio nada de diz…
Ficou a tília frondosa…o pátio onde tanto joguei à bola (mata) pareceu-me muito pequeno…o refeitório que eu achava ser de uma enormidade puf…pequeno…muito pequeno…ou seria eu que era muito pequena???
Como este Colégio já nada me diz…ficou a lembrança…uma lembrança de muitas e boas amizades, algumas que ainda hoje continuam!!!

Recordo os espaços… e o que neles se ia vivendo, à distância de meio século, consciente embora de que a memória nos atraiçoa… e muito! e é também uma amiga em quem não se pode confiar.

A porta duma casa antiga que se abre.

Num 1º andar, o dormitório grande (já não existe hoje…) – que os outros, mais pequenos e mais apetecíveis, eram para as mais velhas! – que escondia, por debaixo das inúmeras camas enfileiradas, pequenas bacias de plástico azuis, que à noite recebiam a água morna distribuída pela irmã Aurora ( para as lavagens mais íntimas, de luz apagada), e as colchas brancas nas camas que davam uma uniformidade engraçada ao dormitório.


No andar de baixo, integrada no edifício, a capela esperava-nos diariamente, cedinho de mais, para a missa matinal. Acolhedor o lugar (hoje bem mais larga a Capela, mais moderna, mas linda na mesma..)

Também no mesmo piso, talvez com acesso por duas ou três escadinhas, era o refeitório, que nos alimentava o corpo, mas fornecia também alguns nutrientes mais nobres: as refeições eram precedidas de uma oração e terminadas com outra.
Era nesse mesmo espaço que, uma vez por semana, nos eram distribuídas, divididas nós por grupos, as tarefas de limpeza em que colaborávamos e que só nos agradavam porque garantiam um tempo sem aulas em que estávamos juntas e conversávamos.

Num dos anos, eram minhas companheira de refeições as manas da Rapoula, mais novinhas que eu (eu era a chefe de mesa..) primas do Quim (dos Ameais)Fonseca que eu viria a namorar anos mais tarde.

Dando para o exterior, ao nível do chão, e fazendo esquina, integrada na casa antiga a que se acedia por outra porta de onde surgiam as professoras, estava a nossa sala de aulas, do 3º , 4º e 5º anos. Bem localizada, no conjunto.
Recordo as aulas, de Português e de Matemática, da irmã Ritinha, uma voz segura e sedutora – de quem eu não gostava – uma mulher dinâmica e com muito saber, responsável por todas nós e atenta a tudo o que se passava.
Havia também a D. Elisa – que não freira e me pôs a aprender todo o Inglês. O Francês e o grosso Bensabat, que condensava todas as regras gramaticais que tínhamos que conhecer foi-me dado a saber e a conhecer pela Irmã Pereira que tinha uma deficiência na voz (falava cioso, como nós dizíamos). Dizia-se que a irmã Ritinha, quando ia a Lisboa, despia a indumentária do quotidiano e parecia outra pessoa.
De vez em quando, entrava na sala uma irmã a chamar uma de nós. A irmã Ritinha queria um encontro a sós, ou “para tirar dúvidas”, após pedido, ou por outras que não seriam as melhores razões. Estavam geralmente envolvidos os segredos, as conversinhas de adolescentes, os caderninhos secretos – cuja capa ou página de rosto exibia a inicial ornamentada do nome da autora – que circulavam cheios de mensagens, às vezes também desenhadas e pintadas, onde se misturavam imaginação, sonhos e realidade, e que originavam comportamentos nem sempre considerados desejáveis.
Para a rebeldia que despontava na minha alma em desenvolvimento, assumiam tais chamadas uma forma de auto-afirmação e de autonomização, desafiando o estabelecido. O mesmo se passava quando, disfarçadamente, comunicávamos durante os tempos de estudo.

Quebrando também a rotina diária, aparecia na sala, uma vez por semana, a irmã Rosalina que simpaticamente nos preparava um banho de imersão. Chamava uma de cada vez e conduzia-a, por zonas habitualmente interditas, a uma casa de banho, nem sempre a mesma, algures escondida nos meandros labirínticos do edifício. E era saboroso!


Outro espaço não menos importante e que nos enchia de adrenalina era o do jogo do mata, um pátio enorme, sobre o comprido. Eu jogava particularmente bem. E admirava e muito o modo certeiro da Olívia e da Marina a “matar” ou apanhar aquela bola voadora. Até as freiras jogavam connosco.

Num dos lados desse pátio do recreio, subindo uma escada exterior, lateral, acedia-se ao salão, muito amplo, onde, além das aulas de Lavores dadas pela D. Irene – afinal havia outra professora e que também não era freira, nem era muito nova, que nos ensinava a bordar e me levou a fazer uns panos individuais que ainda conservo e hoje, não na altura, acho de muito bom gosto…
Não podíamos estar sentadas: cantávamos, dançávamos, andávamos à roda, gastávamos as últimas energias do dia. Aprendi sobretudo muitas cantigas populares portuguesas, que apreciava, assim cantadas em conjunto. Revejo aí a Elisa Costa Pinto, A Dulce Pascoal e a Fernanda Marcos. Uns anos mais novinhas, a Catarina Manso a Isaltina, a Clemência e a Cristina Rocha Rodrigues.

Quando, a partir da sala de aula, se saía para o exterior, encontrávamos um outro espaço aberto, também para os recreios. Aí passeávamos e, na hora do lanche, comíamos uma boa fatia de pão, particularmente gostosa quando o pão era fresco e vinha coberto com margarina ou marmelada

Aos domingos, e quando a família não aparecia para uma visita (quase nunca aparecia), mudávamos de contexto e o jogo do mata transferia-se para outro campo, fisicamente mais aberto – no caminho da Parada?! – após uma boa caminhada a pé.


A propósito da comunicação com o exterior, vêm-me à memória outras curiosidades que, olhando para trás, me fazem sorrir: havia controlo e lápis azul na correspondência, na que entrava e na que saía. Em relação à primeira, comecei a ter consciência de que deveria haver direitos invioláveis, também para os mais novos. Em relação à segunda, aprendi a adequar estratégias: as cartas eram levadas para o correio por uma amiga externa, a Leontina ou Teresinha Fontes.

Evoco finalmente a importância dos laços que nos uniam – para lá das batas-pretas-com-golinha-branca, todas iguais, ou dos vestidos-azuis-escuros-com-preguinhas-na-frente, todos iguais – e surgem-me também a minha querida Ana Bela (na carteira logo à entrada da sala, atrás da porta no meu primeiro ano de colégio e que 4 anos e dois meses depois saíu e foi para o Colégio de Vilar Formoso e de quem até hoje foi a minha AMIGA de SEMPRE - a Lélé, a Celeste Conde a Elisa a Dulce a Fernanda a Catarina e tantas outras entre tantos rostos sem nome. E zango-me às vezes com esta outra marca da idade, o esquecimento, que é indesligável da memória que me permite voltar a reviver, com ternura, o passado.

"Para terminar, dois apelos: que a memória nos permita, enquanto pudermos saborear os dias, continuar a reactualizar o passado, e que a vida nos surpreenda, pelo menos de vez em quando, com o prazer de bons reencontros"!

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