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sexta-feira, 17 de janeiro de 2014
Fica registado - “A HISTÓRIA UNIVERSAL DA INFÂMIA"
“A HISTÓRIA UNIVERSAL DA INFÂMIA"
Entre os portugueses e a luxúria do poder, Passos Coelho escolheu o
poder. Fica registado.
«Este Governo, o de Pedro Passos Coelho, nasceu de uma infâmia. No
livro "Resgatados", de David Dinis e Hugo Coelho, insuspeitos de
simpatias por José Sócrates, conta-se o que aconteceu. O então
primeiro-ministro chamou Pedro Passos Coelho a São Bento para o pôr a
par do PEC4, o programa que evitava a intervenção da troika em
Portugal e que tinha sido aprovado na Comissão Europeia e no Conselho
Europeu, com o apoio da Alemanha e do BCE, que queriam evitar um novo
resgate, depois dos resgates da Grécia e da Irlanda.
Como conta Sócrates na entrevista que hoje se publica, Barroso sabia o
quanto este programa tinha custado a negociar e concordava com a sua
aplicação, preferível à sujeição aos ditames da troika, uma clara
perda de soberania que a Espanha de Zapatero e depois de Rajoy evitou.
Pedro Passos Coelho foi a São Bento e concordou. O resto, como se diz,
é história. E não é contada por José Sócrates que um dia a contará
toda. No livro conta-se que uma personagem chamada Marco António
Costa, porta-voz das ambições do PSD, entalou Passos Coelho entre a
espada e a parede. Ou havia eleições no país ou havia eleições no PSD.
Pedro Passos Coelho escolheu mentir ao país, dizendo que não sabia do
PEC4. Cavaco acompanhou. E José Sócrates demitiu-se, motivo de festa
na aldeia.
Detenho-me nesta mentira porque, quando as águas se acalmam no fundo
poço, é o momento de nos vermos ao espelho. Pedro Passos Coelho podia
ter agido como um chefe político responsável e ter recusado a
chantagem do seu partido. Podia ter respondido ao diligente Marco
António que o país era mais importante do que o partido e que um
resgate seria um passo perigoso para os portugueses. Não o fez.
Fraquejou.
Um Governo que começa com uma mentira e uma fraqueza em cima de uma
chantagem não acaba bem. Houve eleições, esse momento de vindicação do
pequeno espaço político que resta aos cidadãos, e o PSD ganhou,
proclamando a sua pureza ideológica e os benefícios da anunciada purga
de Portugal. Os cidadãos zangados com o despesismo de José Sócrates e
do PS, embarcaram nesta variação saloia do mito sebástico. O homem
providencial. Os danos e o sofrimento que esta estupidez tem provocado
a Portugal são impossíveis de calcular. Consumada a infâmia, a
campanha contra José Sócrates continuou dentro de momentos. Todos os
dias aparecia uma noticiazinha que espalhava pingos de lama, ou o
Freeport, ou a Face Oculta, ou a TVI, ou todas as grandes infâmias de
que Sócrates era acusado. Ao ponto do então chefe do Bloco de
Esquerda, Francisco Louçã, que se tinha aliado ao PCP e ao PSD para
deitar o Governo abaixo e provocar a demissão e eleições (no cálculo
eleitoralista misturado com a doutrina esquerdista que ignorava a
realidade e as contas de Portugal), me ter dito numa entrevista que
considerava "miserável" a "campanha pessoal" da direita contra
Sócrates. Palavras dele.
Aqui chegados, convém recordar o que o Governo de Passos Coelho tem
dito e feito. Recordar as prepotências de Miguel Relvas, os
despedimentos, os SMS, os conluios entre a Maçonaria e os serviços
secretos, os relatórios encomendados, os escândalos, a ameaça da venda
do canal público ao regime angolano, e, por fim, o suave milagre de um
inexistente diploma. Convém recordar as mentiras sobre o sistema
fiscal, os cortes orçamentais, a adiada e nunca apresentada reforma do
Estado, as privatizações apressadas e investigadas pelo MP, os
negócios e nomeações, a venda do BPN, as demissões (a de Gaspar, a
"irrevogável" de Portas), as mentiras de Maria Luís, os swaps e, por
último, cúmulo das dezenas de trapalhadas, o espetáculo da "Razão de
Estado" vista pela miopia de Rui Machete. Convém recordar que na
semana da demissão de José Sócrates os juros do nosso financiamento
externo passaram de 7% para 14%. E os bancos avisaram-no de que não
aguentavam. Sócrates sentou-se e assinou o memorando.
Que o atual primeiro-ministro não hesitasse, mais uma vez, em invocar
um segundo resgate para ganhar as eleições autárquicas que perdeu, diz
tudo sobre a falta de escrúpulos deste Governo, a que se soma a sua
indigência, a sua incompetência, o seu amadorismo. A intransigência.
Este é o problema, não a austeridade.
José Sócrates foi estudar. Escreveu uma tese, agora em livro, que o
honra porque tem um ponto de vista bem argumentado, politicamente
corajoso vindo de um ex-primeiro-ministro. E vê-se que sabe o que diz.
Podem continuar a odiá-lo, criticá-lo, chamar-lhe nomes. Não alinho
nas simpatias ou antipatias pela personagem, com a qual falei raras
vezes. O que não podem é culpá-lo de uma infâmia que levou o país ao
colapso político, financeiro, cívico e moral.
Entre os portugueses e a luxúria do poder, Passos Coelho escolheu o
poder. Fica registado».
Clara Ferreira Alves
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